A força plural da mulher em “Ela é fortaleza”:
uma leitura contemporânea
DOI: 10.69849/livrosft/lu10202605082204
Autora: Luciene Lopes dos Santos¹
Ela é fortaleza
Ela é forte, única e poderosa
Ela é sábia, é colo, é amor que transborda
Ela é tanto que nem sabe
Ou sabeEla é resiliente, corajosa e determinada
Ela é cheia de iniciativa, é intensa!
Ela é empoderada, é ícone de punho
Ela é uma águia linda…Ela também é doce e sensível
É cheia de desejos e sonhos
É mulher, é filha, é mãe, é esposaMas também é, quem ela quiser ser
É tão forte, tão necessária
Tão linda, tão tudo
O poema “Ela é fortaleza” constrói um retrato lírico da mulher por meio de uma linguagem direta, repetitiva e carregada de afirmação. A anáfora — a repetição insistente de “Ela é” no início dos versos — funciona como um eixo estrutural e simbólico: cada repetição reafirma existência, identidade e valor. Não há dúvida ou hesitação no tom predominante; o poema é declarativo, quase manifesto, e isso já aponta para sua relevância no contexto atual.
Logo nos primeiros versos, a mulher é apresentada como “forte, única e poderosa”, ao mesmo tempo em que é “colo” e “amor que transborda”. Essa justaposição de força e afeto é um dos elementos centrais do texto. Em vez de opor dureza e sensibilidade, o poema sugere que ambas coexistem e se alimentam. A imagem da “fortaleza” não é rígida ou fria; ela abriga, acolhe, sustenta. Assim, a força feminina é redefinida não como negação da emoção, mas como sua ampliação.
O trecho “Ela é tanto que nem sabe / Ou sabe” introduz uma pausa reflexiva que quebra momentaneamente o ritmo afirmativo. Aqui, o poema abre espaço para a ambiguidade: a mulher pode não ter plena consciência de sua própria dimensão, ou pode saber — mas nem sempre ser reconhecida por isso. Essa oscilação revela uma camada mais íntima e realista, aproximando o texto da experiência cotidiana de muitas mulheres, que transitam entre a autoconfiança e a invisibilização.
Na sequência, o poema intensifica o retrato com atributos como “resiliente, corajosa e determinada”, além de “cheia de iniciativa” e “intensa”. A linguagem ganha energia e movimento, culminando na imagem simbólica da “águia”. A águia sugere visão ampla, liberdade e altitude — uma metáfora que eleva a figura feminina a um plano de autonomia e potência. Ao mesmo tempo, essa imagem não elimina a delicadeza, já que o poema retorna ao registro sensível: “doce e sensível”, “cheia de desejos e sonhos”.
Um ponto de virada importante ocorre quando o eu lírico enumera papéis sociais — “mulher, filha, mãe, esposa” — para, em seguida, relativizá-los com o verso: “Mas também é, quem ela quiser ser”. Esse movimento é decisivo. O poema reconhece os papéis tradicionalmente associados à mulher, mas recusa que eles sejam limitadores. A identidade feminina não é fixa nem definida apenas por relações externas; ela é, sobretudo, escolha, construção e liberdade.
Nos versos finais — “É tão forte, tão necessária / Tão linda, tão tudo” — há uma síntese intensificadora. A repetição de “tão” amplia o impacto emocional e encerra o poema com uma afirmação totalizante. A mulher é “tudo”: não no sentido de idealização inalcançável, mas como reconhecimento de sua complexidade e centralidade na vida social e afetiva.
A importância desse poema nos dias de hoje reside justamente nessa valorização da multiplicidade e da autonomia feminina. Em um cenário marcado por debates sobre igualdade de gênero, empoderamento e representatividade, “Ela é fortaleza” atua como uma reafirmação poética de que a mulher não precisa se encaixar em moldes únicos. Ela pode ser forte e sensível, tradicional e inovadora, cuidadora e independente — ou qualquer combinação dessas dimensões.
Além disso, a acessibilidade da linguagem torna o poema amplamente comunicativo. Ele não depende de referências eruditas ou estruturas complexas; sua força está na clareza e na emoção direta. Isso amplia seu alcance e permite que diferentes leitoras e leitores se reconheçam nele.
Em síntese, “Ela é fortaleza” é um poema que dialoga profundamente com o presente ao celebrar a mulher em sua totalidade. Ele não apenas descreve qualidades, mas reivindica espaço, reconhecimento e liberdade. Em tempos de transformação social, sua mensagem ressoa como um lembrete necessário: a mulher é múltipla, essencial e, acima de tudo, livre para ser quem quiser.
¹Graduada em Turismo - Universidade Candido Mendes e Pós-graduada em História da Cidade do Rio de Janeiro - Faculdade IPPEO e Tecnologias e Metodologias para Educação a Distância - Universidade Veiga de Almeida. Autora do Livro Meus Poemas.
Referências Bibliográficas:
SANTOS, L. L. Meus Poemas. 1. ed. Rio de Janeiro: Ed. da Autora, 2026.
BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo. 5. ed. Nova Fronteira, 2020.
WOOLF, V. Um Teto Todo Seu. 1. ed. Lafonte, 2022.
CAPÍTULO 4